Terça-feira, 30 de Outubro de 2007

arranhando a superfície até sangrarem os dedos

Desde que viajar se tornou sinónimo de lazer, a descoberta cede lugar ao "reconhecimento": capta-se a essência da cidade numa dúzia pequena de palavras, projectando sua imagem numa definição apelativa; seus habitantes, retratados em meia-dúzia de lugares-comuns, viram figurantes.

 

 

Mas como esquecer que o céu sobre a cidade é tão, ou mais, importante para o estado de espírito de quem acorda e acorre à janela, quanto todas as ideias feitas?


 

Os antigos relatos de viagens, logo de início, descreviam os vultos arquitectónicos que se destacavam ao primeiro olhar panorâmico. Depois estreitavam o campo de visão, baixavam-no ao nível das ruas e das praças, só depois entrando no interior de templos, palácios e fortalezas. 

 

 

"Barro, pedra, madeira, ferro, qual a matéria-prima que caracteriza a cidade e seus habitantes?"_ parecem querer saber. Mas ...e que dizer do céu que é donde lhe vem a luz?


 

Talvez não lhes fosse evidente, como hoje continua não sendo. Talvez por atavismo dos antigos mesteres e ofícios, pela sua atenção ao concreto e palpável.

 

 

 

Como se a matéria fosse inanimada e o palpável não acendesse paixões. Como se cada janela nos desse a mesma imagem da cidade.

 


 

Talvez pelo hábito de se andar de olhos pregados no chão, através de ruas estreitas onde o céu é esquartejado pelos prédios ou tapado pela roupa que seca nos varais.

 

 

De cabeça vergada sob a canga das consumições do dia-a-dia. E porque houve tempos em que se escutava gritar lá do alto Água vai!

 


 

Todavia, na cidade antiga há, ainda, o privilégio de se andar pela rua, lavantar o olhar para a janela duma casa na expectativa de surpreender o corpo amado? e, no mesmo movimento, abarcar o céu e um templo dedicado a divindades locais 

 

 

numa metáfora tão vazia de sentido, quanto carregada de emoções.

 


 

Há quem pense o céu e, quando pensa, pensa-o sempre igual. Será assim tão difícil de sentir que o casario, as ruas empedradas, até os muros que velam jardins que são hortas

 

 

o envolvem numa paleta de cores e texturas, criando uma atmosfera densa, instável, de memórias e perfumes?

 


 

Não só o céu é sempre outro, conforme a cidade se move em redor do transeunte, como este é transportado para outros horizontes e distintas emoções. 

 

 

 

 

 

Árvores imensas, sombrias ramadas e janelas viradas para o mundo...

 


 

...alternam com janelas ensimesmadas, varandas gradeadas, lojas de comércio improvável. Há quem se apaixone pelo detalhe, há quem se deixe possuir pelos ambientes,

 

 

 

 

como também há quem não cultive a memória, nem alimente paixões. Sem se arranhar a superfície, sua opacidade cega os sentidos uma coisa é uma coisa que é uma coisa

 


 

Mas é o rio que faz da cidade esta cidade. Mesmo que ausente dos horizontes das inúmeras janelas que nem o Sol acolhem.

 

 

 

 

 

Mesmo que esquecido das preocupações dos que calcorreiam as ruas da cidade.

 

 


 

 

O rio funda a cidade, molda-lhe o perfil: o casario dispõe-se pelas margens que se estreitam e se cruzam debaixo dum céu inconstante, volúvel e

 

 

que tenta acompanhar os humores do rio caprichoso.

 

 


 

Como não há-de ser temperamental o rio que nasce nas montanhas do interior profundo, cruzando terras de fronteira, ganhando força no esforço de rasgar caminhos para o litoral até se entregar às fantasias do mar? E como acompanha-lo se sua corrente muda de sentido e intensidade por influência da Lua?

 

 

 

 

 

 

A cidade cresceu para poente até às praias oceânicas, arrastada pelo rio.

 

 


 

Há que ser clarividente para ver que até o Sol reaparece lá das bandas donde nasce o rio, todas as madrugadas?

 

 

E nem por isso o Sol faz parte dos atributos da cidade?

 


 

Nem por isso, nem por segui-lo até ao mar. A cidade velha vive sob a influência da atmosfera densa do rio: sua luz não é a do Sol, mas a da chuva.

 

 

 

 

 

E são as tardes frias, cinzentas, quem seduzem o estranho que nela se perca.

 


 

A cidade brilha sob a chuva miúda, sua pele de sáurio antigo se solta, rejuvenescendo na mulher de beleza eterna e idade indefinível. Do húmus das fundações libertam-se exalações íntimas, insinuantes.

 

 

 

 

 

 

 

Suas ruas se transfiguram no bailado de luz e cor com as nuvens que passam. Nuvens ligeiras e úberes.

 


 

Será de espantar haver tantos a lamentarem-na por esses dias? Que a abominem por ser escura, granítica? Em tempos ainda não tão distantes, a maior qualidade que lhe reconheciam era a de ser a cidade do trabalho: para esses, o rio era estrada por onde chegava o vinho que deu fama à cidade; para esses, o céu era sempre escuro porque muito a norte.

 

 

Mas alguma vez arranharam a superfície das coisas até lhes sangrarem os dedos?

 


 

Se é mesmo verdade de que os habitantes duma cidade são moldados pela matéria-prima de que a cidade é feita, atente-se à combinação do ferro e do granito sob o céu de chumbo, nas margens escuras e tormentosas.

 

 


 

Ou recorde-se a história violenta que deu origens a muralhas como estas: é cidade que se orgulha de dar o nome a uma nação. Dela se pode dizer, talvez como de nenhuma outra, que suas maiores virtudes são os seus maiores defeitos.

 

 

Ah, e se experimentassem caminhar pela cidade, nas noites de luar, pelos becos e vielas desamparados de iluminação pública!...mas para entende-lo há que raspar, raspar até sangrar e ver para além da superfície


 

Nas escarpas sobranceiras ao rio, acumulam-se épocas, ossadas e lendas.

 

 

 


 

 Por detrás das fachadas de granito, paredes meias com pias imagens das igrejas, escondem-se histórias que a toponímia desvela escadas da esnoga monte dos judeus

 

 


 

O granito é o alicerce da sua condição de cidade próspera, estampada nas casas dos ricos burgueses, nos templos e armazéns. Também em palácios e palacetes, sim! mas recorde-se de que foi preciso um rei aqui pernoitar, em peregrinação a Compostela, 

 

 

para a cidade ceder na sua prerrogativa de não dar dormida, dentro de muros, a nobre algum.

 


 

O ferro reforçou sua vocação mercantil, fê-la ganhar ambições industriais e

 

 


 

é esta identidade em que se revêem suas gentes, se bem que os tempos sejam outros.

 

 

 

 

 


 

Nunca ausentes, os habitantes da cidade antiga têm uma presença elusiva, difícil entender se estão de passagem, se estão por estar ou se vão ali e já voltam.

 

 

 

A aparente falta de pressa ou de propósito deixa transparecer uma tensão interior.

 


 

Tal como o céu, os templos e as janelas das casas, evitam se expor, tentam passar desapercebidos, anónimos como figurantes num cenário.

 

 

 

 

 


 

Ou desaparecem por detrás de janelas opacas, sob o escuro das arcadas, embrenhados sabe-se lá em que actividades clandestinas.

 

 

 

 

 


 

Mas quem pode afirmar que não estão e em toda a parte?

 

 

 


 

Efeitos do rio, ainda? Da peculiar atmosfera que esbate ruas e evidências?

 

 


 

Entre o céu e o rio existem pistas para quem queira ir mais além da superfície das revistas de viagens ou dos postais de lembranças.

 

 

Caminhos que se abrem à espontânea curiosidade.

 

 

 


 

Ou outras tantas janelas que se fecham à menor tentativa de as enquadrar.

 

 

 

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