Terça-feira, 27 de Março de 2007

Interior Profundo

Trilhas de rebanhos em seu deambular diário, mato rasteiro balizando percursos sem início, nem fim. Estes são caminhos abertos a horas incertas de dias sempre diferentes. Pois não é garantido a quem por eles regresse, voltar a ver algo de semelhante à vista na vez anterior. Mas  a estrada de terra batida, ao longe, serpenteia ao sol e em suas bermas dormem povoados, casas feitas da mesma pedra dos montes.

Vente ventiño do Norte / vente ventiño norteiro / Vente ventiño do Norte / serás o meu compañeiro

 

 



 

É no intervalo de cada passada que se rasga a trilha: quem tem pernas para subir e descer, e tornar a subir e descer, entra num mundo encantado.

Nossa Senhora da Lapa / 'stá debaixo do penedo; / cá fora está o lagarto / que co'os dentes mete medo

 



 

Pela encosta descem vimeiros em fila para o regato que se não vê, mas se faz ouvir. Recorde o caminhante que houveram tempos em que eram usados para atar cepas da vinha e feixes de vides que seguiam para as lareiras famintas. Ou para se fazerem cestos e cestas.

E son bós cestos, /e son, son, son, / que coma eles / no hai ningún bón./ Miren os cestos / e mirennos ben / que como eles / non-os fai ninguén

Mais dum mestre-escola estabeleceu cânones de ortografia e regeu coros infantis da tabuada ao ritmo duma vara de vime, esguia e flexível, sobre os lombos e cabeças de seus pupilos.

 



 

Acima está o souto...todavia, quem pode falar o que quer que seja sobre os imensos penedos, amontoados e desafiadores em direção ao céu?

Naquela serrinha alta / naquela mais alta serra, /...lá uma serrana / formosa e ganadeira / (...) quando lhe lembram amores / baixa aquela ribeira

 



 

Estas são terras onde se mantêm fronteiras entre o mundo selvagem e o da cultura, apropriadamente chamada aqui de agricultura. ou entre o mundo humanizado e o inumano. Para os distraídos, a paisagem é bucólica, perfeita a conjugação entre a Natureza e o Homem.

Debaixo da miña casa ténoche un niño de lebre; / e ti debaixo da tua / Tél-o deño que te leve.

 



 

Para os que lá vivem, há um mundo que dá sustento e vida, pague-se-lhe em suor e trabalho de sol-a-sol. E há um mundo que também pode dar sustento, como tirar vidas, de dia como de noite. A mesma água que rega os campos é a água que atrai os incautos até ao lodo das profundezas

 

Auga, que forte eres / que apagas o lume / que queima ao pau / que malla ao gato / que come ao rato / que fura o muro / que torna o aire / que corre a nube / que cubre o dia / que turba o sol / que derrete a neve / que no meu pé prende.

 



 

Quem anda pelos altos pode ter a surpresa de descobrir um vale risonho, orgulhoso de seus campos e hortas, rodeado pelo casario de chaminés fumegantes: a imagem do vale feliz. Saberá que, outrora, risos de criança e o alucinante gemer dum carro de bois o teriam posto de aviso, ainda antes dos olhos confirmarem o que os ouvidos já anunciavam?

Vou-me embora, levo pressa / levo água de regar; / Falaremos pra Domingo / que é dia de mais vagar.

Porém, hoje, mesmo o mais desprevenido dos olhares atentará nas manchas de mato, silvas e ervas que se espalham como uma doença ruim. Amanhã serão ainda mais.

 



 

Muitas vezes, as aldeias instalavam-se no cabeço dos montes, vigiando caminhos e reservando os vales para pasto e cultivo. Nas suas fundações encontram-se adereços em cobre, moedas de prata e armas de ferro. Com esses objectos os antepassados esquecidos se enfeitavam, amealhavam para futuro ou traziam à cinta para o que desse e viesse. 

De pai mau / um filho bô, / lá birá neto / que sai ò abô

 



 

Mesmo de passagem, quem chega percebe porque se despovoam as aldeias do Interior profundo. Desses alguns sofrerão o sortilégio que os arrastará ali sempre uma outra vez e jamais estarão em casa quando estiverem ausentes dali. Para eles, só agora a caminhada começou.

Cando pasei por Fornelos / os meus ollos foron fontes; / Adios, montes de Fornelos! / Adios, Fornelos dos Montes!

 



 

Seduzidos pelo bucolismo da paisagem antiga, com suas vinhas veneráveis, suas fileiras d'árvores de fruto, embalados pelo cantar dos pássaros no final dum dia extenuante. E pela estranha familiaridade do casario da aldeia aninhada, quase escondida pela sombra da noite. E o sentimento indescritível ao ver a igreja dourada pelo sol-poente.

Freguesia de Carreira / ao longe parece vila, / tem um cravo na entrada, / uma rosa na saída.

 



 

Familiaridade até para com as ovelhas que lhe barram a passagem e lhe devolvem olhares de estranheza. Às tantas, o caminhante as decepciona tanto quanto ele se desilude ao sorrir para a pastora e não descobre a moça engraçada que, por ventura, terá sido décadas atrás.

A saia da Carolina / tem um lagarto pintado. / Quando a Carolina baila, / o lagarto move o rabo.

 



 

Caminhando pelas ruas da aldeia, evitando as poças d'água suja pelo gado no seu regresso dos pastos, ao caminhante possuido pela atmosfera do Interior profundo não incomoda o cheiro a estrume fresco, nem as moscas que procuram o calor dos estábulos e o sangue das bestas. Resignado sob o vento glacial encanado pelas vielas, diabo à solta correndo entre gente. Feliz ao imaginar ritmos e rotinas, até odores a comida caseira por detrás das paredes de pedra.

Ò nobre dono desta casa / nós trazemos o "surrão" / para vós nos  oferecerdes / pelo menos um capão.

 

 



 

Na pedra granítica, coberta de liquens e musgo, imagina uma verdade e um modo de viver mais natural, mais genuíno.

Passei pela tua porta / pus a mão na fechadura... / Passei pela tua porta / e mirei pelo furado.

 

 



 

 

 

Casas, muros, calçadas: a mesma pele encarquilhada, manchada e áspera pela idade e pelos rigores do clima. Os que aqui viveram chamaram a estas casas de lar.

Adeus, quinta do retiro / da sala para a cozinha: / a maior pena que eu levo / é do rabo de sardinha.

e, assim tiveram oportunidade, partiram para o Litoral, para a Capital ou para lá do Oceano. Novos mundos com nomes exóticos, promessas de riqueza e vida nova: índia, áfrica, brasil, frança...

Minha terra, minha terra, /Eu mal dela não direi: / eu sei onde nasci, / mas não sei onde acabarei.

Ou, somente, um trabalho a que chamar emprego, sem sujar as mãos e recebendo ordenado certo.

Vou-me embora do meu amo / não lhe devo nem um dia; / antes me ele deve a mim / as noites que eu não dormia.

 



 

Quem as cobiça hoje, só tem olhos para os tesouros que janelas nuas emolduram, obras de arte, sonhos feitos realidade.

 

Algum dia por te ver / abria sete janelas; / agora por te não ver / não abro nenhuma delas.

 



 

 

Esses são os que tardam em se aperceber que, para lá dos muros das casas, mais além dos muros dos campos e dos pastos, se erguem muros de que ninguém tem memória quem levantou. Talvez algum velho ainda recorde ter ouvido, em criança, uma avó contar a história do castelo que se diz aí ter havido, antes de Cristo andar pelo mundo. Do rei mouro que aprisionou a filha debaixo do penedo, em castigo por se perder de amores por um cavaleiro cristão. Do tesouro que a moura ainda hoje guarda, transformada em serpe...

Angelina, ò Angelina / tanto te crece a barriga... / Se me dás algum desgosto, / mato-te, tiro-te a vida. /-Valha-o Deus, ò senhor pai, / valha-o Deus de tanto ralhar; / chegada a maldita hora / vou-me deitar a afogar.

 



 

Para os aldeões, de hoje e de sempre, o mundo é um mundo precário e ameaçado: mesmo quando a terra se rende ao arado e à enxada, povoando-se de árvores dóceis, o mundo humanizado vive entre as águas primevas e o céu inconstante.

Lágrimas de sermão / e chuva de trovoada / cai na terra / não vale nada.

 



 

Das águas e do céu depende, e dependerá sempre, seu sustento.

Quem quiser que a água corra / faça-lhe o rego ao jeito; / quem quiser o amor firme, / traga-o fechado no peito.

 



 

 

Mas estão cientes de que a fronteira é já ali, ao saltar do muro: o bosque é promessa, tentação...quem sabe o que lá se esconde?

Indo um caçador à caça, caçando com maravilha (...) / arrumou-se a uma árvore / das mais altas que lá havia / onde viu então estar / uma mui linda donzilha: / -Que fazes aí, menina? / -Sete fadas me fadaram / no ventre de madre mia / que estivesse aqui sete anos, / sete anos e mais um dia, / hoje se acabam os sete anos / amanhã se acaba o dia.

Aos aldeões de antanho não oferecia dúvida: fora dos limites da aldeia e dos campos, um mundo agreste, selvagem, oferece e cobra vidas. Em carne, em sangue e em almas.



 

Das fragas e desfiladeiros da montanha chega o frio que gela telhados, fontanários e pastos, passando pelas frinchas de portas e janelas, cortando as carnes e martirizando os ossos; de lá vem a névoa que obscurece o céu, invade os campos e entra pela aldeia,

Eu talho o sopro do vento / o ar de cima e o ar de baixo; / o ar do norte e o ar do sul; / o sopro do vento e da chuva, / ar de cristão, de judeu e de pagão.

 



 

 

 agitando vultos e sombras que se querem adormecidos em eterno descanso.

Alma que vais passando, / olha o desengano qu'esta caveira te dá: /com'a ti já eu fui, / com'a mim tu o serás.

 



 

Se ainda há lobos para correrem a noite, é da serra que descem.

Cabra, cabriola,  / corre montes e vales, / corre meninos a pares /  tamêm te comerê a ti, / se cá chigares.

Menino está quedo / que vem a Farronca / que te mete medo.

 



 

 

 

Por isso marcaram o território, assinalando os limites dos mundos paralelos que coexistem

Cruz no monte, cruz na fonte, / nunca pecado ali encontre

 



 

 

 

 

e, em certos lugares ou alturas, se entrecruzam, abrindo-se portas para um e outro lado.

O Senhor é meu padrinho, / a Senhora é minha madrinha, / que me fez a cruz na testa: / o demónio não me impeça, / nem de noite, nem de dia, / nem ao pino do meio-dia

 

 



 

 

  

Houve aldeões que se especializaram em cruzar os mundos, procurando a cura dos males do corpo, a salvação das almas; alguns fizeram disso profissão, como os pastores e almocreves; e outros sempre que era tempo de caça ou de amores.

Eu te pico e repico / e te torno a repicar / para que não possas comer, / nem beber, / nem dormir, / nem descansar, / nem debaixo das telhas estar, / enquanto comigo não vieres falar.

 



 

 

 

Ainda andam por aí, confundidos com o mato e os penedos,

Menina, eres o demo / que me andas atentando; / que no rio que na fonte / sempre te encontro lavando.

 



 

 

 

dedicando-se a vigiar e defender fronteiras...quem passa ligeiro e alegre, adivinhará que aquele cão mudo, mas atento, não hesitará em o estraçalhar assim ultrapasse limites invisíveis ou desrespeite a lei dos montes?

É noite e o sol-posto / e o meu amor não vem: / ou o meu amor é morto, / ou ele matou alguém.

 

 

 



 

 

 

 

As mulheres, já se sabe, são dadas às coisas invisíveis, às mezinhas e à má-língua, dirão os homens. E os homens andam sempre com o diabo entre as pernas, têm mau vinho, gastam o que têm e o que não têm, dirão as mulheres. Na verdade, dois mundos paralelos que se cruzam no aconchego da casa, no sossego da aldeia.

Pedreirinho, pica, pica / pica na pedrinha dura / pica na mulher alheia, / que outros picam na tua.

Malo raio parta os homes, / i-o primeiro sea o meu: / home que non gana a vida / para que o quero eu?

 

 



 

 

 

 

Que se pode dizer sobre o mundo selvagem e ignoto, espaço de todos os perigos e tentações?

Que nos livre de lobos e lobas, / cães danados e por danar, / d'home morto, má encontro, / d'home vivo, má p'rigo, / S.Romão seja comigo.

 

 



 

 

 

 

Este é o mundo onde a Primavera é anunciada pelo ladrão do cuco e a chegada do Outono pelo mocho agourento.

O paxaro de Maria / anda nas miñas cireixas: / -Come, paxariño, come /veremos as que me deixas.

 

 

 

 



 

 

 

 

 

Nem as obras humanas feitas para lhe colocarem limites e esconjurarem os terrores, resistem ao abandono: em pouco tempo se tornam a morada dos fantasmas dos nossos pesadelos e das criaturas do Além.

"Ò homem, se me matares, / enterra-me na ermida / òs pés de Nossa Senhora / virada p'ra Virgem Maria." /

Ò cabo de nove meses / um doce cantar se ouvia: / abriram a sepultura / acharam-na lá parida. /

C' uma menina nos braços / que se chamava Cecília! / Os anjos eram os padrinhos, / Nossa Senhora madrinha. 

 

post feito com a "colaboração" involuntária (mas muito preciosa) de:

 Fermin Bouza Brey  Etnografia Y Folklore de Galicia edicións xerais de galicia s.a. 1982

José Leite de Vasconcellos Revista Lusitana

Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 11:52
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