Quinta-feira, 15 de Junho de 2006

Pela noite sem lua, guiado por odores a maresia e aromas de pinho,

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quem pisa as dunas sabe ao que vai?

Do que entrevê, outros mundos passados e futuros, aquém e além-mundo, não percebe...

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e os passos seguem o caminho até à praia sem se dar conta

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porque junto ao mar tudo é claro e nítido...mas, se é assim, que faz ali, abandonado e virado sobre si mesmo, um barco?

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Nem a areia lambida pelo mar é a mesma da deixada lá trás, nas dunas: as pegadas, aqui, são nítidas e duradouras (?!) enquanto por baixo do areal húmido abrem-se orifícios pequenos, sinal de agitação profunda.

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Entre a água e a areia joga-se ao claro-escuro...o caminhante terá ideia ao que jogam?

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Como pode ter atraído que foi por odores e aromas, embalado no marulhar das águas, e agora seduzido pelos róseos dedos da Aurora?

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Porque, por mais avisado esteja de que até à luz do dia existem lugares assombrados, alguém resiste ao apelo da madrugada?

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Talvez se assuste com a presença de alguma criatura marinha abandonada na maré-vaza,

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talvez a aparição duma rocha aparentemente inerte o perturbe,

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porém, à ténue luz da Aurora, reverberada pelas águas do Oceano, as formas são envolvidas duma falsa tranquilidade, onde se ocultam segredos de arquitectura telúrica,

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ossadas de monstros pré-históricos,

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marcas de fronteiras abandonadas.

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Já não há memória dos piratas normandos e dos corsários magrebinos, homens do mar tenebroso que assolaram este litoral: para repeli-los, homens da terra enxuta e firme elevaram barreiras em pedra e ferro.

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Essas histórias, e muitas estórias outras, ocultam-se à vista de todos, fechadas as portas que ninguém pensa abrir,

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e não há luz que desvele seus segredos:

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ervas daninhas ou benfazejas do esquecimento, silvas eriçadas de culpa nunca expiada, cobrem a memória dos Homens,

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escondendo escadarias graníticas,

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janelas e portas que são olhos vazados pela violência do Tempo e dos tempos.

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Quantos suportarão a dor de tanta memória? É moléstia de pele que mancha,

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supura

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e corrói

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Não existirão outras vias quando se tem o campo verde dum lado

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e o mar aberto do outro?

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Via à aventura, ao sonho, novos mundos onde tudo será pela primeira vez.

 

Talvez, talvez...Mas não!_ dirão aqueles que têm os pés de chumbo bem assentes na terra.

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-Só se salvará quem refizer seus passos

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regressando a terra firme, à terra dos homens! 

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Onde tudo tem o seu lugar: a virtude e a falta dela, o ter e o ser.

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Porque é mesmo verdade que o sono dormido sob uma cobertura de telha é muito diferente do sonho vivido à beira-mar.

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Essa é sabedoria antiga do tempo daqueles que cruzavam os mares aterrados com o cântico das sereias.

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Quando punham ambos os pés sobre terra enxuta na volta aos Lares, mulheres e filhos, parentes e vizinhos, recebiam-nos como se regressados do Além.

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O Sonho revelava-se demónio tenaz e quezilento que só os anos e a vida castigam com golpes implacáveis, sem nunca mata-Lo.

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Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 00:32
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