Quinta-feira, 28 de Dezembro de 2006

melancolia de natal

Crentes, ou não, a época do Natal mergulha ruas e recordações nas águas mornas da melancolia. sou a grande quimera da tua alma/ E, sem viver, ando a viver contigo...(1)  Melancolia distinta da do Outono: esta transporta para outros lugares e conjuga diferentes formas do verbo Ser Quando o Outono/ já não pode senão melancolia,/ é que o secreto rumor da água/ inunda os lábios de oiro (2); aquela faz recuar no tempo, reformula a história duma vida, recria afectos perdidos e preenche lacunas da memória com imagens e palavras. Ás vezes, passo horas inteiras/ Olhos fitos nestas braseiras,/ sonhando o tempo que lá vai (3)

 

A memória é traiçoeira e previsível: o que está para trás foi melhor, Recordam-se vocês do bom tempo de outrora,/ De um tempo que passou e que não volta mais...? (4) tem cheiro, cor, saudade, sabor

 

e uma alegria triste.Muito contente fui eu naquela terra; mas coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava (5)

Tão maior a traição quando existe um espaço ancestral, lugar de brincadeiras e descobertas na infância, atmosfera onde os que já partiram permanecem. quem poderá compreender o inextricável labirinto, com que à maneira dos peixes do mar, se andam sempre movendo, e passando de um dono para outro dono?...sem firmeza, nem estabilidade alguma, estão sempre passando neste Mundo as casas, as quintas, as herdades, os morgados (6) Austera e digna, a casa dos antepassados: o granito e a sobriedade da traça acentuam a fragilidade dos laços humanos. o minhoto tinha-lhe revelado, através dum Portugal em alho, salsa e pimenta, uma existência mansa, corredia, de avós e netos, que lhe parecera então quase absurda, mas que era dele afinal, como a saliva da boca (7)

Porque nada do que é humano perdura: depois das pessoas, obras e  memórias se perdem para sempre. Eu vivo. Nunca fiz vida. Fui mais sensato, gozei apenas...(8)

O imenso borrão do Tempo mancha a pintura. Não são os anos que nos envelhecem;/ São certas horas más, certos momentos (9)

Cada geração resiste como pode, fechando ao Esquecimento o acesso às memórias. andei por esse mundo; atentava para as coisas; guardava-as na memória. Vi, li, ouvi. (10)

Mas há sempre uma Porta da Traição e Se vim ao mundo, foi / Só para desflorar florestas virgens,/ E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! /  O mais que faço não vale nada (11)

 

com ajudas cúmplices entra não necessito de documentos azuis nem de esforços de memória para me recriar por inteiro: recordo-me de tudo, de tudo, até de certos acontecimentos terríveis de que me esqueci, bem sepultos na lembrança diária de me sentir mal-vivido e sujo (12)

estilhaçando, E contigo morreu o meu projecto de viver a condição divina (13)

corrompendo, Não tenhas medo que apodreça. Lá em cima luzem agora estrelas, sóis, planetas, cintilações, carbúnculos. É o pó dos Deuses mortos. (14)

até à ruína. Já não sou aquele Eu do tempo que é passado (15)

E nem por isso, em todas as épocas, se deixaram de lançar pontes sobre os abismos do Tempo, Dele te vingue a doce Humanidade/ Que de agravos do Tempo estás seguro/ Meus versos te darão a eternidade (16)

 

desafiando as silvas do remorso e as heras do olvido. E quem diz que a lembrança dos passados dá gosto não se viu nunca nestes, nem em outros semelhantes, porque o gosto que se recebe na memória deles nasce do descanso em que se vê quem os passou, e não do lembrar-se de ver tão particularmente a morte ao olho, como dizem (17)

Guardiões dum saber sem nome, de vivências sem rosto, marcados pelo Velho da foice e da ampulheta: a todo o tempo anunciam o tempo que passa. Os guardadores de verdades não são eternos, eles precisam de ser substituídos (18)

E quem tenha olhos para ver, veja. Quem tenha cabeça para entender, entenda. Que o tempo urge e a cada momento os vestígios das antigas passagens são ocultas pelas ervas parasitas da memória e pelas águas escuras do esquecimento. importantíssima e geral vantagem que têm os vivos, vivos por enquanto, de poderem ler o que outros, por antes de tempo mortos, não chegaram a conhecer (19)

 

Para aqueles que não têm memória, tudo é novidade mas a última sensação do momento já passou, Eu queria ter o tempo e o sossego suficientes/ Para não pensar em cousa nenhuma,/ Para nem me sentir viver,/ Para só saber de mim nos olhos dos outros, reflectido (20)

tal qual eles mesmos passarão. A Criação honra-vos com a sua indiferença absoluta, nada mais. O Sol prosseguirá  na sua marcha; as aves continuarão a cantar, as plantas continuarão a florescer; tudo se passará como dantes se passava, apenas com um espectador a menos (21)

Até serem surpreendidos um dia, uma noite, por algo, alguém ou, simplesmente, pelo tempo que passou. O crepúsculo enche-me de nostalgia. Lembro-me de coisas de outrora, e é como se sobre mim passasse o afago de olhares tristes de todas as mulheres. Tenho pena do que não vivi, do que não gozei, da luz e das árvores que não vi, de todos os sonhos que me não lembram; do meu quimérico passado, há mil anos, quando fui Rei e Poeta (22)

Confrontados, finalmente, com o aqui e agora, também com o  antes e depois. Crises da meia-idade,  vai-se gastando a idade e cresce o dano (23) de identidade, crises existênciais, de valores: sinais da falta de tempo para si mesmos, para se escutar. Para ser. Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam (...) mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista (24)

Vidas que se descobrem, subitamente, encalhadas. NO MÊS DE MARÇO, Mariano fez a descoberta de descobrir que era medíocre. (...)era a meio de Março, não chovia, ninguém lho havia dito-mas era medíocre (...) Estava a ler uma tabuleta que dizia "médicodecrianças" quando o autocarro lhe avançou pelo peito dentro. Antes de as coisas passarem de um verde manhoso a um vermelho muito grosso, ainda ouviu esta assim "todos os homens são medíocres, mariano é homem, logo" (25)

 

( 1) Flobela Espanca

(2) Eugénio de Andrade

(3) António Nobre

(4) Guerra Junqueiro

(5) Bernardim Ribeiro

(6) António Vieira

(7) Miguel Torga

(8) Mário de Sá Carneiro

(9) António Feijó

(10) Francisco Manuel de Melo

(11) José Régio

(12) José Gomes Ferreira

(13) Sofia de Mello Breyner Andresen

(14) Eça de Queirós

(15) José Duro

(16)  Manuel Maria Barbosa du Bocage

(17) Bernardo Gomes de Brito

(18) Agustina Bessa-Luís

(19) José Saramago  

(20) Alberto Caeiro     

 (21) Wenceslau de Moraes

(22) Raul Brandão

(23) Luis Vaz de Camões  

(24) Bernardo Soares

(25) As Três Marias Isabel Barreno-Teresa Horta-Velho da Costa  

                                                                                                                                                 

Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 20:15
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