Domingo, 20 de Agosto de 2006

Tempus fugit

Há um tempo em que o Tempo é esperança no futuro

E este podem ser mil e um projectos, sonhos com forma, aroma e cor

que o Tempo desgasta. Quem os vive acomoda-se, muitas vezes por julgar ver, com o passar do tempo, formas puras, ideias claras, materiais nobres.

Iludindo-se que hajam coisas que o Tempo jamais destruirá.

 

Tal como disseram inúmeras gerações de homens sábios e respeitados, os mais velhos reforçados pelas vozes concordantes dos mais novos, estes pela geração seguinte e assim sucessivamente.

O Tempo cobra seu preço pelas ilusões na paz e remanso do lar, à lareira, ou pelas fantasias sob a iluminação dúbia da rua e do mundo.

No campanário o sino marca menos o passar do tempo que o minguar das paixões.

No Paraíso haviam duas árvores, a da Vida e a do Conhecimento do Bem e do Mal. Também havia a Árvore do Tempo: alta, de ramos poderosos erguidos para o céu numa súplica: Detém-me enquanto é tempo!

Mas esta é história tão menos verdadeira quantas as outras, pois o Tempo é plural: Porque são vários e nunca viremos a conhece-los todos (1)

A serem algo, seriam flores.

O que não deixaria de ser mais um logro: quem não sente o tempo escorrer pelos dedos, águas dum rio que nunca são as mesmas?

Que a essência do Tempo, plural ou não, é o esquecimento: mergulhar nas águas do rio é perder o fio do tempo que passa. Essa é sabedoria da aranha, criatura que aprecia passar desapercebida, estendendo sua teia sobre o espaço e o tempo de quem se cruza pela vida: tal como as águas, a teia esconde mesmo quando se revela.

Por mais que as raízes da memória tentem se fixar, há sempre uma toupeira a esburacar e a deixa-las expostas aos dentes roedores, famintos de emoções, mas não de paixões e ideias.

Os tempos sempre se escoaram através de veredas estreitas, assombradas por densa vegetação.

Até os antigos Romanos, orgulhosos de suas instituições e competentes nas obras públicas, cansaram-se de unir o Império na teia de estradas, pontes, leis e legiões abandonando-o ao mato selvagem e às águas revoltas.

Suas grandiosas villas foram arrasadas pelo abalo da Queda

 e pela erosão do Tempo.

Se a terra, que é terra, encarquilhada, racha e cobre-se de liquens e musgos.

Se a árvore, que é árvore, cede e cai, esfacelada

Então, poderia a fantasia de erguer moradas aos Deuses sobreviver à própria pedra?

Os Deuses fogem de as habitar,

tal como os Homens há muito abandonaram os locais que ergueram para sua segurança.

As construções cedem cedo demais, tal como seus sonhos se desvanecem ao longo do curto dia duma vida.

Há muito, muito tempo atrás, fez-se ouvir este lamento: "Tudo o que um homem faz não é mais do que vento!"(2)  É próprio do Tempo ser irreversível e abandonar seus companheiros de percurso: "(...) meu amigo, que tanto amava, agora é como o barro. Não irei, como ele, deitar-me para não levantar-me mais?"(3) 

 Nem uma longa vida dá ânimo para encarar de frente a sombra inquietante que a segue de perto e lhe tolhe o passo.

Tenta-se resistir e fugir ao ritmo do Tempo colocando pesadas pedras no seu caminho, esperançosos de que a memória dos vindouros garanta a imortalidade ansiada.

Porém, a resposta ao lamento é o eco dos que já partiram: " No teu vagabundear sem cessar que obtiveste? Na tua errância esgotaste-te a ti mesmo, carregaste teus músculos de cansaço, fizeste chegar o final de teus dias. A humanidade-sua descendência- deve ser cortada como a cana do canavial. (...) Construímos casas para sempre? Selamos nossos contratos para sempre? Compartem os irmãos suas heranças para sempre? Perdura o ódio na terra para sempre?(...) O que dorme e o morto quanto se assemelham um ao outro" (4)

Há um barco à espera de cada um "(...) deverás agora subir ao barco e farei com que passes sobre as Águas da Morte para que chegues."(5)

de nada valem promessas a deuses desconhecidos, a deuses menores e a falsos deuses,

debalde se luta contra tempos e contratempos: "Se pudesse fechar a porta da angústia, se pudesse veda-la com asfalto e betume!" (6) Expedientes para adiar o soar das trombetas

quando, verdade verdadinha, a resposta ao lamento foi dada ao queixoso por uma mulher, dona duma taberna e com mais sabedoria do que reis e magos de todos os tempos: "Porque vagueias de um lado para o outro? A Vida que persegues não a alcançarás jamais. Quando os deuses criaram a humanidade, assinalaram a morte à humanidade, mas guardaram entre as mãos a Vida. (...) enche a barriga, vive alegre dia e noite, faz festa cada dia, dança e canta dia e noite, que tuas roupas sejam imaculadas, lava-te a cabeça, banha-te, atende ao menino que te toma a mão, deleita a tua mulher, abraçada a ti. Essa é a única perspectiva da humanidade." (7)

(1) in Corrida para o Abismo

(2) in Poema de Gilgamesh (tábua III, pp.40) (todas as citações deste livro são retiradas da tradução para o castelhano por Federico Lara Peinado Editorial Tecnos 2001)

(3) idem (tábua X, pp.159)

(4) ibidem  (tábua X, pp.161)

(5) ibidem (tábua X, pp.151)

(6) ibidem (tábua X, pp.159)

(7) ibidem (tábua X, pp.149)

 

Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 20:18
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