Sábado, 29 de Setembro de 2007

Findo Setembro, o que fica...?

 

 

É no Verão que se reconhece o labor antigo que defende os caminhantes do rigor da época, plantando sombras, colorindo as bordas do caminho e perfurmando o ar.

Findo Setembro, o que fica destes caminhos poeirentos donde exalam fragrâncias silvestres?

 



 

 

Mesmo na cidade antiga se movem sombras para alívio dos transeuntes sequiosos, sombras erguidas entre ruas onde não passa o automóvel, nem abrem lojas da moda, porque demasiado estreitas.

 

No Verão, quem passa por aqueles caminhos ou por estas ruas sente a diferença, ganha ânimo para uma pausa, passeia o olhar pelos detalhes imperceptíveis ao passo acelerado e às cabeças ocupadas.

 



  

Nesse vagar reencontrado, a disponibilidade de tempo e atenção abrem portas para descobertas,

 

para modos de estar e de fazer que subsistem como por encanto,

 

 



  

ou transportam para realidades passadas que moldaram o presente, hoje erguendo-se como uma interrogação sobre o sentido e a duração de tudo o que é imorredouro, imutável ou inestimável para cada geração. 

 

 

 



 

 

Neste nosso tempo, os meses estivais têm a qualidade de concentrar num espaço breve de tempo, por todas as terras e lugares, as celebrações do Sagrado e do Profano, aproveitando essa disponibilidade de tempo que se impôs lentamente ao longo do século passado: as férias de Verão. 

 

Com a disponibilidade, generalizou-se também a mobilidade: festas de aldeia, casamentos, baptizados, comunhões, feiras, romarias, convergem de maneira a receberem os que emigraram para as franças e as américas, os migrantes que abalaram para o litoral urbano e os turistas de qualquer lugar em transumância.

 



 

 

Mas nenhuma celebração rivaliza com a das longas horas diurnas sobre areias escaldantes tresandando a óleos e cremes, frente a águas de qualidade duvidosa. 

 

De longe e de perto, chegam celebrantes que se alinham em filas de carros para os acessos e aparcamentos, irmanados no espaço comum do areal e da linha d'água onde ainda "têm pé",

 



 

partilhando cortiços de betão habitualmente desertos no resto do ano. Para os modernos peregrinos todas as cores e sensações têm de ser quentes, alegres e fortes, tal qual são o Sol e o Mar nas suas teofanias de Verão.   

 

 E tem de se fazer ouvir música a condizer, por todo o lado: na praia, no passeio marítmo, em qualquer lugar onde circule gente.

 

 



 

 

No Verão a praia é um lugar diferente, mas suas horas mágicas são ao amanhecer, quando as areias revelam despojos arrastados pela maré,  

 

as cores são brilhantes, o ar é fresco e as músicas são as das aves marinhas e as da rebentação, e

 



 

 

quando o Sol se põe, hora em que todas as palavras são supérfluas.  

 

 



 

 

À distancia, o areal revela-se uma linha fina demarcando mundos distintos, mas cúmplices.   

 

Felizes daqueles que navegam dum para outro e mais além, sem perder o pé, nem a maré.

 



 

 

Porque existem outras praias douradas de água fresca: para lá chegar haverá que fazer o caminho ao andar, como já o disse um poeta. 

 

O que encontrará é tudo menos certo, porque paraísos na terra já não há e, contudo...

 

 



 

 

quem segue os cursos d'água percorre caminhos de vida discreta, senão mesmo clandestina; 

 

horizontes novos se revelam a quem tenha o passo leve e o ouvido atento.

 

 



 

 

Mas basta deixar o olhar se perder algures, mesmo sem sair do sítio e sem mais esforço do que o de respirar,

 

para que a magia estival exerça o seu feitiço:

 

 



 

 

sob o céu estrelado há uma brisa fresca que só nas noites quentes se faz sentir convidando à vadiagem e tanto melhor se for na companhia da Lua Cheia  

 

ao luar, aquilo que conhecemos sob a luz do sol revela-se uma coisa-outra, talvez mais nítida porque mais pessoal;

 

 



 

 

há presenças na praia que melhor se revelam quando se mergulha sob as águas, ainda que frias, ainda que agitadas. 

 

imerso o corpo nas águas marinhas, os sentidos perdem intensidade a favor da intuição;

 



 

 

os bosques, campos, pastos e baldios exprimem mais claramente a união entre a Natureza  que os acolhe e a mão humana que os modela, numa promessa de pão, paz e sonho 

 

ilusão?! claro, como não? mas também é verdade que nas celebrações mais arcaicas desta união realizavam-se sacrifícios humanos, tendo o escolhido levado uma vida desafogada e luxuriosa durante quase um ano.

 



 

 

Também a cidade antiga fora construída na ilusão de obedecer a um plano, estabelecendo uma ordem e garantindo justiça dentro de muros, e mais não era que o reflexo das aspirações comuns orientadas pelos interesses duns tantos. 

 

Realidade era a tormenta que, volta e meia, assombrava o horizonte colectivo com suas ameaças de raios, chuvas e granizo.

 

 



 

 

Mas como negar o charme dessa arquitectura urbana? Ao nosso olhar anacrónico, suas ruas e praças têm a escala humana que falta nas modernas cidades. 

 

Também no Verão se vivencia melhor a urbanidade dos espaços públicos, o prazer de estar em sociedade, mesmo na eminência duma carga d'água.

 



 

 

A maledicência, a coscuvilhice das velhas comadres ou as suspeitas infâmes e anónimas largadas numa conversa casual,  

 

são muito menos danosas à sombra dum fim de tarde de Verão do que à luz lívida dum dia invernoso.

 

 



 

 

É bem sabido que o Verão varia com as regiões: nas terras de xisto é mais quente e seco do que nas de granito. 

 

A luz solar é mais forte a sul do que a norte e as terras meridionais sofrem a força do suão, vento que alimenta paixões violentas e melancolias suicidas.

 



 

 

A cidade antiga, no Sul, manifesta uma alegria e ligeireza enganadoras, fruto da necessidade dos que lá moravam em manter arejadas casas e pátios, de refrescar ruas e becos: 

 

é que as sombras são bens escassos, abundando mais por obra e arte do engenho humano do que por dávida natural.

 

 



 

 

Tirando partido da pedra clara e mole, do uso de cores fortes e claras, abrindo-se para o exterior na condição do Sol não entrar,

 

 



 

 

e fizeram-no com sucesso, elegância e simplicidade, criando a ilusão de se estar ao luar em pleno dia.  

 

 



 

 

Essas são preocupações ausentes a norte, nas terras do granito: aqui temem-se as correntes d'ar como se fossem o demónio. 

 

De tanto temerem o frio, nem mesmo no Verão evitam a quem passa um arrepio incómodo à sombra dos muros escuros.

 

 



 

 

Porque são terras frias, húmidas e assombradas por denso arvoredo, a melancolia é maior nos dias cinzentos, morrinhentos.

 

E a morrinha, se não mata, inspira poetas. Ou assim era dantes.

 

 



 

 

Pois o abandono das terras e casas ameaça matas e rios, levantando-se em seu lugar habitações de férias com piscina, eucaliptais estéreis, barragens  que secam a vida em redor. 

 

Todavia, há nos espaços em ruina mais poesia do que em toda a nova paisagem que se vai impondo. Também é no Verão que isto se torna mais visível.

 

 



 

 

Não era com olhar poético que os antigos moradores viam as fragas que tornavam árdua a agricultura nestes vales,

nem era por lirismo que levantavam imagens em pedra nos ermos onde não mora viv'alma.

 

 



 

 

Mais do que tudo, temiam e veneravam o sobrenatural que se infiltrava em toda a realidade.    

 

 



 

 

E se conseguiam modelar a paisagem natural e humana com um sentido de proporção admirável, não o fizeram com o olhar e a ideia com que hoje a apreciamos. 

 

 Esses são saberes que se recolhem calcorreando aqueles velhos caminhos poeirentos ou as ruelas estreitas e sombrias... mas, no Verão, alguém terá vontade de aprender lições? Aqueles que os percorrem de "moto quatro", em veículos TodoTerreno 4x4, ou os cruzam nos acessos às albufeiras formadas pelas barragens, verão alguma coisa?



 

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