Domingo, 4 de Março de 2007

Litoral

 Existem os demónios do deserto, que são de areia ou de gelo. Existem os espíritos da floresta, silênciosos ou barulhentos. Há os monstros das profundidades oceânicas que surgem à superfície para tormento dos navegantes.

E há os encantos do litoral, fronteira incerta onde demónios, espíritos e monstros, assim como gente de carne e osso, fantasmas ubíquos e quimeras sem fim, pululam para tormento e gozo de uns e de outros.

 



 

 

Há quem desafie o mar construindo obras em betão e ferro, castelos edificados na areia, presa fácil das suas fúrias. Edificações que ficam na memória como monstros do litoral...

 



 

...ou como morada assombrada na Memória perdida, mas renitente. Nas horas tranquilas, o mar só não fica indiferente ao céu que o envolve.

 



 

O litoral é fronteira incerta, sempre em movimento, mutante.

 



 

Nele, mar e terra se encontram em conflito, em paz, com amor ou raiva, jamais indiferentes e aborrecidos.

 



 

As paixões que desperta trouxe povos do Interior Profundo até ele,

 



 

 

descendo por rios de águas escuras,

 



 

ou baixando das montanhas de céu carregado.

 



 

Alucinados pelo dourado das areias e pela imensidão das águas, fixaram-se aí para sempre.

 



 

Entre os campos e pastagens, do lado da terra, e as barcas e caravelas, do lado do mar, levantaram povoados, portos e estaleiros.



 

 

Suas moradas ergueram frente às ondas, sobre dunas e pauis, os mais temerários;

 



 

a montante da foz dos rios, os mais avisados.

 



 

Ninguém escapou ao fascínio das águas,

 



 

mas para sua defesa ergueram pedra sobre pedras,

 



 

atormentados pelo desejo e pela culpa de desejar.

 



 

Desde que o mundo é mundo, sempre houve os que procuraram manter-se em terra firma, cientes de que a vida é uma teia laboriosa

 



 que se quer firmemente presa. E que a paciência e o trabalho árduo são virtudes intemporais.

 



 

Para esses, sonho, aventura e paixão são outras tantas formas de conjugar o verbo perder: não há barco mais seguro do que o que está em terra.

 



 

Mas não abdicam dos frutos do mar.

 



 

Desde que o mundo é mundo, sempre houve os que procuraram caminhos novos, cientes de que a vida oculta passagens

 



 

abertas para novos horizontes: o risco e a fortuna são incertos, mas só estão um passo mais à frente.

 



 

Para estes, do lado de lá do mar estão mundos por descobrir, amplos espaços onde cada um é mais do que sempre foi e ainda não chegou a ser.

 



 

Pequenos ou grandes, ignoti mundi de sensações, sentimentos e saberes.

 



 

O litoral é Fronteira que assusta e tenta,

 

 



 

antecâmara dum mysterium tremendum et fascinans,

 



 

que põe em evidência cautelas e desvarios,

 



 

limite inultrapassável que obriga ao recuo, a repisar as pedras da calçada,

 

 



 

ou ponto de partida, porque navegar é preciso?

 



 

post dedicado à Ana, pela sua simpatia e incentivo
Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 00:20
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