Quinta-feira, 4 de Maio de 2006

Nem todos os lugares assombrados são escuros e tétricos. Nem todos estão ocultos.

Existem lugares por onde se entra através dum pórtico ao cimo duma escadaria de pedra.

 


 

Lugares assim existem e são assombrados mesmo em plena luz do dia. O que existe para lá do Pórtico?! E adianta dizer?

 

Há quem salte muros e entre nos reinos encantados como se fosse salteador: esses serão os mais sábios...

...porque, a seu modo, são caçadores e pressentem os perigos que não se oferecem à vista.

Há também os que seguem pelas estradas d'água, aqui já foi dito como é fácil se perderem à beira-rio. E adianta avisar?

A maioria prefere os caminhos de terra, fiéis à crença de que quem tem pés assentes na terra nunca se deixa iludir, julgando que por não se afastarem dos caminhos não se hão-de perder.

 

Uns e outros resistirão neste mundo selvagem, onde por todo o lado se sussurra que o estranho, a assombração, são eles mesmos?

Esta gente amará o silêncio dos bosques habitados pelo que não é humano, dos vales sem gente, das encostas batidas pelos ventos?

Nada disto é evidente à luz do dia

sob a reconfortante companhia do sol alto num céu sem nuvens

 Olhassem bem o chão que pisam e veriam lá sombras e tufos de

ervas

e mantos de musgo. Mesmo que olhem, vêem? E os pés moídos pela caminhada pedem o refrigério das águas turbulentas. Porque tudo em redor convida ao repouso sob a sombra fresca.

Mas até os mais distraídos acabarão por se inquietar, olhando por cima do ombro, perguntando-se que sombra fora aquela que se mexera entre o arvoredo.

Olhando para mais longe, há já quem não suporte o isolamento e tente regressar a um mundo humanizado. Mas nos reinos encantados até os sinais da presença humana causam estranheza:

Que casas são aquelas no meio do monte, que gente se atreverá a viver neste ermo? De que vivem?

E se pensam, pensam em quê?

Os caminhos das aldeias têm aspecto de calçada romana, vias dum Império caído.

 

Via em direção a que lugar? Não se sabe e poucos saberão que são guiados pelos muros sinuosos.

Por aqui passaram veículos que não mais existem: máquinas de guerra arcaicas, liteiras com suas fidalgas, carroças pesadas de estrume fresco e mato acabado de roçar.
Neste mundo não houve nenhum mais estimado que o velhinho carro de bois, no seu gemer lancinante, marcando a pedra com o rodado ao longo de gerações.

 

Mas dele só restam peças mutiladas, os homens e mulheres que o conduziam ou partiram para outros mundos ou estão enterrados sob o eixo da roda. Os bois esses, alguns ainda percorrem os caminhos, vigiando lameiros e touçando as bermas.

 

Vestígios dum mundo perdido, técnicas e saberes que já não há quem os entenda, artes e ditos cujos frutos ainda uns poucos

 

saboreiam.

Nestes vales profundos que o viajante pode ascender através dum pórtico e deixar-se levar pelas antigas estradas, não importa se o faz sob o sol do meio-dia, se ao luar, já que a sua presença é assombração que despertará memórias ancestrais. São lugares assim, onde se palmilham as vias entre o velho e o novo mundo, que levam uns a encontrarem-se e logo de seguida a se perderem...e outros a passarem como quem passa ao lado sem nunca se apaixonarem à primeira vista.

Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 09:38
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1 comentário:
De ana a 28 de Junho de 2006 às 17:15
Tantas vezes me perco e julgo reencontrar-me.
E perco-me outra vez.
Só não passo ao lado, indiferente.
Por um pórtico ou por espaços imensos, eu quero enxergar as belezas do mundo.

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