Quinta-feira, 27 de Abril de 2006

Das horas tranquilas nenhuma é mais enganadora do que sob o lusco-fusco do final dum dia

Dos lugares amenos, nenhum mais insinuante do que à beira-rio.

 


 

Para aquele que se acolhe na segurança duma casa, a tentação de se abeirar da janela para o rio é grande. E poucos passos leva até se por à porta, atraído pelo cantar sonoro e vibrante dum qualquer pássaro.

E porque é Abril, quase Maio, do rio vem o respirar morno de mulher.

"Vou ali, volto já." _pensa ou diz, ou sequer reflecte: os caminhos para os rios são mais claros e direitos na hora sombria antes do anoitecer. E as pedras do rio, elas mesmas, parecem cantar ao ritmo das águas ligeiras.

O pássaro? Talvez mais adiante, um pouco mais à frente. Os cânticos que chegam do rio guiam os passos.

O rio, todo ele, é estrada aberta para todo o lado, não fossem as sombras da noite e do arvoredo esbaterem margens e destinos. 

De perto, as margens de cá e lá apaziguam as inquietações do dia. Ar tranquilo e morno. Luz suave, íntima. Por baixo das águas paradas, junto das margens de cá, revelam-se muros antigos, pedra lavrada pelas mãos da gente de antanho, escadarias pétreas que levam ao fundo do rio, caminhos nunca fechados.

Arcos sobre águas indicam a passagem para o lado de Lá.

Porque de Lá canta o pássaro que, ainda agora, cantava na margem de Cá. Muros sumersos, caminhos na terra e na água, ponte de pedra: tudo convida a ir...a partir?! ...e o regresso?

Longe vai ficando, detrás do arvoredo que acompanha os passos, a casa.

Silenciosos, um barco e um barqueiro cruzam as águas...

...Caronte?!                                              Olhando em redor, a vegetação transfigura-se,

ganha luz própria, anima-se com um sopro vindo das águas.

Nas encostas sobre o rio forma-se a carujeira, como se diz pelas bandas do Douro.

Virar os calcanhares ao rio, nesta hora e de tão perto, não é tão fácil de fazer quanto dizer: para se afastar do rio já não existem caminhos claros e muros imensos tolhem o passo de quem regressa.

As árvores se agigantam. O pássaro há muito que se calou, dos outros animais só se fazem ouvir o restolhar do mato e o piar lúgubre.

É para estes caminhantes transviados, sem rumo, nem norte, que homens piedosos e tementes do antigamente, ergueram alminhas em memória dos que foram,

para auxílio dos que hão-de ir.

Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 11:04
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3 comentários:
De ana a 29 de Junho de 2006 às 10:42
Voltei a caminhar por aqui, pelas veredas que conduzem ao rio: vim ouvir-lhe o respirar.
Vim adoçar os olhos nesta margem e na outra, escutando os pássaros que trinam agora e já se aquietam. Vim respirar o ar tranquilo e morno do final do dia, apesar de ser só manhã. A hora é a que a gente desejar - determinamo-la dentro de nós - eu quero um cair da tarde. Vim apaziguar-me nas palavras e nas imagens, como quem bebe um gole de água, fresca, na concha da mão, ouvindo o cantar da fonte, olhando o musgo que cerca a bica.
Há lugares assim: onde podemos voltar quando os queremos, estão lá, iguais, acessíveis, disponíveis.
Que bom que eles existam.
De ana a 26 de Abril de 2007 às 14:57
Voltei às margens do rio, a revisitar o barqueiro, a ouvir o pássaro, que ainda estavam aqui, à espera dos passos de gente, em busca de paz e serenidade.
Lugares perenes, sempre com o mesmo encanto. Porque é Abril, quase Maio.
De ana a 11 de Junho de 2007 às 19:12
E voltei agora, em Junho, porque há lugares a que se volta.
Às vezes em silêncio.

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