Sábado, 7 de Julho de 2007

fronteira

Para o viajante, os limites não são restrições mas demarcações, espaços-fronteira. Fruto duma cosmologia pessoal e espaço para percursos sentimentais, a geografia imaginária funda-se na selectividade da memória, em si mesma recriadora de imagens, quimeras geradas pelos afectos. Eixos do espaço-tempo em que nos movemos.

Por vezes, arbitrários ou artificiais como qualquer outra obra humana; outras vezes são marcadores da História e, como esta, sujeitos à tectónica das eras. 


 

 E que melhor exemplo de terras de fronteira do que as atravessadas pelas águas onde dum lado é e do outro não?

Preso à condição de criatura áptera, ignorante da arte da vela e sem fé na força da sua braçada,para aquele que se detém frente às águas, o lado de lá permanece distante e obscuro. Mas permanece, ainda que longe da vista ou distante no tempo, seja em forma de obsessão, desafio ou promessa: Que areias e conchas rodearão aquela ilha? Que despojos do mar, que criaturas marinhas, se estendem pelos seus areais e rochedos?

 
E que história levou homens de tempos passados a erigir uma fortaleza naquele local?

Que estórias, para sempre mudas, se insinuam no vento que sopra pelos seus pátios, pórticos e corredores?
Que esqueletos e paixões estarão submersos em suas fundações, calabouços e poços?
Quem somente confie na força das pernas e sabe que o caminho à porta de casa o leva a todos os lugares do mundo, alguma vez terá atravessado a fronteira sem se dar conta de já estar do lado de lá. Mas dando consigo a cogitar as razões indeclináveis porque alguém levantou uma casa neste ermo, longe de tudo e de todos.
Ou a efabular estórias que determinaram seu sucesso, seu apogeu, sua decadência, irremediável abandono e ruína. Nos escombros do que foi um lar ou no traçado dos caminhos abafados pela vegetação exuberante e brava, a fronteira reforça seu contorno: ali viveu gente como nós, ali onde ainda se erguem árvores de fruto sem dono, assustadas com o abandono a que foram votadas.
Homiziados escondidos nas terras desertas da fronteira, refúgio de salteadores, de santos eremitas cansados do mundo, de amantes em fuga ansiosos por uma cabana.
O que distingue, o que marca a separação é o tempo, à vez circular e rectilíneo.
Que sentido dar a estes espaços de outros tempos, no nosso tempo? "Aldeias históricas, espaços de lazer e convívio na natureza"?! A lugares onde o trabalho moía desde tenra idade, onde os anos de vigor e juventude eram consumidos em menos tempo do que hoje?
Tempos em que a natureza era madrasta má, ogre faminto e tentação desviante, pecado mortal.

A gente que aqui viveu carregou consigo uma dualidade ominosa, consoante os olhos de quem via (verdade seja dita: então se dizia serem os olhos o espelho da alma).
A viúva idosa tanto podia ser a bondosa avózinha como a bruxa do monte; porta de casa aberta era sinal de hospitalidade, mas também o convite à transgressão. Até as nuvens do céu tanto traziam águas benfazejas como o granizo daninho. Certo é que a mesma pedra das casas, que protegia seus moradores do vento da serra, gelava-os nas noites de Inverno.

 

A geografia imaginária e as falsas memórias  também trazem a marca do dualismo: a expressão de verdades cujo sentido e alcance são sempre precários ou a manifestação dos anseios que se fazem passar por realidade.

Uma forma de dizer que nem tudo o que não é verdadeiro seja falso. 


 

Desde tempos imemoriais, os homens tentam subordinar seu viver, suas tarefas e saberes, a verdades eternas. Tão eternas quanto essas vivências, práticas e entendimentos.

 


Para os que entram nos mesmos rios, outras e outras são as águas que correm por eles, já haviamos sido alertados.

O inverso da tendência de ancorar o presente no passado que imaginamos. Será a fraqueza da memória condição para a novidade, alterando espaços e vivências?


 

Talvez seja mais fácil viver na convicção da continuidade, do percurso mental familiar, sem suscitar interrogações, nem decisões. Inevitavelmente, e em mais do que uma ocasião, as velhas certezas são interpeladas pelo imprevisto, por algo que acicata a curiosidade.


 

Detrás da aparência vetusta e "inalterada", nada é o que parece. Tempo e espaço mudam, os espaços dedicados ao sagrado abrem-se ao lazer e ao desfrute,


 

os espaços rurais ou naturais tornam-se as novas rotas de peregrinação: "fim-de-semana romântico num antigo mosteiro" versus "percursos temáticos em comunhão com a natureza".

Novas fronteiras de mentalidades e vivências ganham contornos enquanto

 


 

as velhas fronteiras entre reinos desaparecidos se esbatem no abraço das margens do rio.

 


 

Isso em nada diminui o que tem de fascinante e terrível na atmosfera peculiar dessas fronteiras quase invisíveis, quase mudas,


 

lugar permanente das maravilhas (que interessa se reais, se imaginárias?) que irrompem do silêncio dos bosques, do cantar das águas do riacho, do murmúrio das ruínas e dos gritos na noite.


 

 

Pontos de união entre mundos remotos e o do tempo presente. Um só, afinal, para quem tiver vagar de o percorrer.

 

 

   

Tempo e espaço de amplo horizonte, fronteira e traço de união,

 

   

 num futuro aqui e agora, pertença a um lugar-outro algures e sempre.

 

 

 


 





Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 13:15
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