Terça-feira, 17 de Abril de 2007

mistério pascal

Para aqueles que seguem um calendário do sagrado, existem épocas festivas, noites de arrependimento, dias para cumprir penitência. Há quem abandone as cidades e procure nas pequenas localidades a autenticidade das comemorações e cerimónias, ritos ancestrais ainda vivos, genuína devoção. Quiçá o tempo e espaço originais. In illo tempore...

Mas porque são atraídos pelas pequenas povoações? Que maior verdade poderá existir numa menor dimensão?

 


 

Solitários, em pequenos ou grandes bandos, chegam peregrinos que ainda conhecem os caminhos das estrelas, adoram no silêncio das pequenas ermidas, oram em grandes santuários meio arruinados, fazem promessas, confiam anseios e faltas a oragos obscuros. Seus pés, suas pernas, têm a fé de mover montes e vales, abrindo caminhos ao compasso do calendário.


 

Mas terão ainda a sabedoria dos peregrinos de outros tempos que os punha de aviso contra esses mesmos caminhos, por movediços e traiçoeiros? No final dum dia de marcha, ou quase no fim da caminhada, uma casa isolada à entrada da ponte que une o povoado ao resto do mundo. Sugestão para um breve desvio, a promessa do descanso merecido, a tentação duma refeição quente. Casa do moinho, moleiro ausente,

 


 

moça que lava no rio...

 


 

Naquele tempo, quem erguia muros e torreões tanto cuidava da protecção dos que cá estavam, como em controlar suas idas e vindas. O pecado, o mal, atacava fora de muros e insinuava-se intramuros: montes, bosques, ribeiras, eram uma ameaça, mas por detrás da parede das casas, debaixo daqueles telhados, através duma janela entreaberta ou pela frincha duma porta mal fechada, também existia perigo e perdição.


 

Hoje não é assim: recuperam-se casas emprestando-lhes falsas memórias, iludindo os recém-chegados com cores, formas e texturas postiças, fazendo crer assim terem sido desde sempre. Mundo tranquilo, adormecido, pacífico. Ingénuo, alegre, asseado. Ideal para fins-de-semana com as crianças, para passar uns dias "na natureza". Sem recordação dos usos e costumes, sem a dor da fome crónica e do frio intenso. Sem sujar as mãos no estrume. Ou temer a vox populi que era, assim se dizia, a voz de Deus.


 

A memória desses tempos, essa fica com os que ainda vivem ao ritmo das estações do ano tentando acompanhar o ciclo das colheitas, o alternar do dia com a noite.


 

Gente temente do olhar furtivo por detrás da vidraça, desconfiada das vozes que chamem para lá das portas semi-cerradas, vulnerável a quem  possa surgir no balcão duma casa, indefesa frente ao desconhecido que irrompa à sua frente, no dobrar da esquina. Se levantam os olhos ao céu numa prece, impõe-se-lhes a presença e a proximidade do mundo exterior à aldeia...


 

se baixam os olhos assustados para o empedrado do chão, seus passos encaminham-nos para as escadas que levam ao interior das casas alheias.


 

Nos cruzamentos e nas saídas do povoado, figuras tutelares apontam o caminho recto, demarcam o mundo dos homens do mundo incerto.


 

Demarcações flutuantes, imprecisas, onde o maravilhoso irrompe sem aviso. Ou em resposta à moça que acompanha os animais aos pastos no monte e perdera uma vaca naquela tarde de trovoada e chuva grossa. Poderes mais altos que fazem o milagre de encaminhar o gado arredio e as crianças perdidas à sua morada, em troca de missas, boas obras, esmolas e penitências .


 

Nestas terras de tradição, o espaço do sagrado sempre foi disputado por uma qualquer ortodoxia em pedra trabalhada, obediente a uma arquitectura mística, e a heterodoxia da natureza viva, insinuante e corruptora. Enquanto uma proclama verdades eternas e celestiais, exprimindo no seu espaço, pelas suas formas e volumes, o Sagrado, a outra faz o mesmo cobrindo as formas com suas cores, suas fragrâncias, arruinando os templos pela força das raízes famintas de terra fresca e húmida.


 

A sabedoria dos antigos peregrinos, a vivência dos que acompanham a cadência das estações do ano porque disso depende seu sustento, levava-os a estar de bem com Deus e com o diabo. Os velhos santuários consagrados à religião de seus pais e avós, quando abandonados pela incúria ou pela pouca fé, também foram ocupados pela presença obscura e primeva, inominável, que tanto estava em bosques, regatos e montes, como na lareira das casas, no adro da igreja à noite, nos caminhos, pontes e cruzamentos. Aos peregrinos de hoje falta-lhes essa noção, sem ela não se lhes abrem as portas de certos lugares sagrados.


 

Antigos lugares de culto edificados sobre outros arruinados, cultos nunca esquecidos de crenças de que não há memória o nome. Nestas ruínas sobre ruínas, o Agnus Dei liberta-se dos pecados do mundo, revoltado contra o destino imposto e assume-se como criatura selvagem, deus pagão e macho do rebanho. Em verdade, verdade se diga: estariam melhor preparados os peregrinos de outrora frente aos de hoje, perante tamanha revelação?

 

 

Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 12:12
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3 comentários:
De Ana a 17 de Abril de 2007 às 19:45
A rever, a reler.
A leitura seguinte diz, por norma, mais do que a primeira!
De pepe a 17 de Abril de 2007 às 23:36
Também sou dessa opinião, Ana.
De ana a 19 de Abril de 2007 às 10:51
Por isso já cá voltei N vezes. Embrenhar-me nas imagens e nas ideias.

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