Sábado, 3 de Fevereiro de 2007

PortuCale

 

Todo o viajante apaixonado crê existirem lugares no mundo centrados num ponto donde todas as caminhadas devem irradiar, ponto de partida que, mil vezes repetido, leva sempre a um novo percurso, a um novo olhar, a uma revelação. Só a partir do rio a Cidade se deixa descobrir aos olhos do viajante.

 


 

 

 


 

 

 

 

 

 Mas há quem desespere, vendo-se encurralado na estreita margem, assombrado pela encosta sobranceira onde formas bizarras se levantam, ameaçadoras.

 


 

 


 

 

 Para esses, pontes imensas enclausuram céu e horizonte.

 


 

 


 

 

 

 

 

Na verdade, junto às pontes crescem ervas altas, mato e plantas trepadeiras, escondendo ruínas de pedra, velhos caminhos abandonados, histórias esquecidas de cercos, cantigas infantis de que só se recordam o nome.

 


 

 


 

 

 

 

Para o viajante mais timorato e que apressa o passo, nada disso lhe é evidente. Angustia-o o casario emoldurado a ferro e betão,

 


 

 


 

 

 

 

 numa armação que aparenta ser prisão, esqueleto.

 


 

 


 

 

 

 

 

 

Para ele é difícil saber se estas são escadas para quem chega do rio, se para precipitar, quem passa, às águas. Também é verdade que sofre de tontura quase idêntica quem sobe, como quem tomba.

 


 

 


 

 

 

 

 Ou será tudo isto ilusão claustrofóbica? Pois não surgem sempre passagens para um e outro lado?

 


 

 


 

 

 

 

 

A Cidade esconde tesouros entre o feio, banal casario, deixando a dúvida duma miragem na memória do viajante.

 


 

 


 

 

 

 

Por vezes, as passagens dão a ilusão de se abrirem para lado algum,

 


 

 


 

 

 

outras vezes, fazem pensar que povo escolheria viver em lugar assim.

 


 

 


 

 

 

mas se olhar atentamente, o viajante verá os sinais de vida,

 


 

 


 

 

 

de vida que se anuncia por sinais ambíguos.

 


 

 


 

 

 

Porque, lá nos altos, vive gente.

 


 

 


 

 

 

E o que, para uns, são ruínas, coito de malfeitores, para outros são palácios ou um lugar a que chamam casa.

 


 

 


 

 

 

 

 

O povo que mora aqui vive ainda do rio, mesmo que este já não lhe baste. Outrora, o rio trazia sável, enguia, lampreia.

 


 

 


 

 

A um deles, não foi o peixe que o tornou querido e respeitado pelo seu povo de ambas as margens: foram os homens e mulheres que salvou das fúrias do rio. E os mortos que resgatou ao lodo espesso. 

 


 

 


 

 

 

Gente que passa ao lado de quem segue ligeiro ao longo do rio.

 


 

 


 

 

 

Mas quem não lhes invejará a vista que se tem lá de cima?

 


 

 


 

 

 

 

 

Esta é cidade que ainda exibe marcas de tempos de guerra

 


 

 


 

 

 

entre os que cá estavam e os que chegavam pela força,

 


 

 


 

 

 

entre os moradores, que não baixavam a cerviz, e o poder lá do alto.

 


 

 


 

 

 

 

 

Hoje, a vida junto ao rio parece ociosa,

 


 

 


 

 

 

enquadrada,

 


 

 


 

 

 

condicionada,

 


 

 


 

 

 

pelas pontes que esmagam tudo o resto.

 


 

 


 

 

 

 

 

Nada mais falso, porém: as margens apertam-se neste abraço,

 


 

 


 

 

 

 

Dum lado e do outro a cidade é a mesma.

 


 

 


 

 

 

Janelas para si mesmas viradas,

 


 

 


 

 

 

laços que unem num vai e vem constante,

 


 

 


 

 

 

e a cidade é casario, pontes, muralhas,

 


 

 


 

 

 

ponto de chegada e de partida,

 


 

 


 

 

 

rio abaixo, rio acima.

 


 

 


 

 

 

Onde de tudo, para todos, se encontra.

 


 

 


 

 

 

 

Com vagar, engenho,

 


 

 


 

 

 

arte,

 


 

 


 

 

 

alquimias antigas de mosto de uva, terra de saibro, luz do sol,

 


 

 


 

 

 

 

e escuridão de caves seculares.

 


 

 


 

 

 

 

 

Segredos que se desvelam a quem os procura a partir do rio.

 


 

 

 


 

 

Bem entendido, quem os procura pode descobrir o que não espera. Mas esse é o encanto de lugares assim: há sempre um barco para tentar o viajante a seguir o canto da sereia,

 


 

 

 


 

um horizonte novo que se abre, o apelo à migração interior para mundos esquecidos.

 

 

 

 

 


 

Direitos de Autor: textos e fotos de Pedro Freire de Almeida pepe às 11:44
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1 comentário:
De ana a 19 de Março de 2007 às 10:00
um lugar a que chamam casa + um barco para tentar o viajante a seguir o canto da sereia: apelo à migração interior para mundos esquecidos.
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Todas as vidas são curtas viagens e fazem-se destas coisas.

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