Por vezes, arbitrários ou artificiais como qualquer outra obra humana; outras vezes são marcadores da História e, como esta, sujeitos à tectónica das eras.
E que melhor exemplo de terras de fronteira do que as atravessadas pelas águas onde dum lado é e do outro não?
A geografia imaginária e as falsas memórias também trazem a marca do dualismo: a expressão de verdades cujo sentido e alcance são sempre precários ou a manifestação dos anseios que se fazem passar por realidade.
Uma forma de dizer que nem tudo o que não é verdadeiro seja falso.
Desde tempos imemoriais, os homens tentam subordinar seu viver, suas tarefas e saberes, a verdades eternas. Tão eternas quanto essas vivências, práticas e entendimentos.
Para os que entram nos mesmos rios, outras e outras são as águas que correm por eles, já haviamos sido alertados.
O inverso da tendência de ancorar o presente no passado que imaginamos. Será a fraqueza da memória condição para a novidade, alterando espaços e vivências?
Talvez seja mais fácil viver na convicção da continuidade, do percurso mental familiar, sem suscitar interrogações, nem decisões. Inevitavelmente, e em mais do que uma ocasião, as velhas certezas são interpeladas pelo imprevisto, por algo que acicata a curiosidade.
Detrás da aparência vetusta e "inalterada", nada é o que parece. Tempo e espaço mudam, os espaços dedicados ao sagrado abrem-se ao lazer e ao desfrute,
os espaços rurais ou naturais tornam-se as novas rotas de peregrinação: "fim-de-semana romântico num antigo mosteiro" versus "percursos temáticos em comunhão com a natureza".
Novas fronteiras de mentalidades e vivências ganham contornos enquanto
as velhas fronteiras entre reinos desaparecidos se esbatem no abraço das margens do rio.
Isso em nada diminui o que tem de fascinante e terrível na atmosfera peculiar dessas fronteiras quase invisíveis, quase mudas,
lugar permanente das maravilhas (que interessa se reais, se imaginárias?) que irrompem do silêncio dos bosques, do cantar das águas do riacho, do murmúrio das ruínas e dos gritos na noite.
Pontos de união entre mundos remotos e o do tempo presente. Um só, afinal, para quem tiver vagar de o percorrer.
Tempo e espaço de amplo horizonte, fronteira e traço de união,
num futuro aqui e agora, pertença a um lugar-outro algures e sempre.
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