Existem os demónios do deserto, que são de areia ou de gelo. Existem os espíritos da floresta, silênciosos ou barulhentos. Há os monstros das profundidades oceânicas que surgem à superfície para tormento dos navegantes.
E há os encantos do litoral, fronteira incerta onde demónios, espíritos e monstros, assim como gente de carne e osso, fantasmas ubíquos e quimeras sem fim, pululam para tormento e gozo de uns e de outros.
Há quem desafie o mar construindo obras em betão e ferro, castelos edificados na areia, presa fácil das suas fúrias. Edificações que ficam na memória como monstros do litoral...
...ou como morada assombrada na Memória perdida, mas renitente. Nas horas tranquilas, o mar só não fica indiferente ao céu que o envolve.
O litoral é fronteira incerta, sempre em movimento, mutante.
Nele, mar e terra se encontram em conflito, em paz, com amor ou raiva, jamais indiferentes e aborrecidos.
As paixões que desperta trouxe povos do Interior Profundo até ele,
descendo por rios de águas escuras,
ou baixando das montanhas de céu carregado.
Alucinados pelo dourado das areias e pela imensidão das águas, fixaram-se aí para sempre.
Entre os campos e pastagens, do lado da terra, e as barcas e caravelas, do lado do mar, levantaram povoados, portos e estaleiros.
Suas moradas ergueram frente às ondas, sobre dunas e pauis, os mais temerários;
a montante da foz dos rios, os mais avisados.
Ninguém escapou ao fascínio das águas,
mas para sua defesa ergueram pedra sobre pedras,
atormentados pelo desejo e pela culpa de desejar.
Desde que o mundo é mundo, sempre houve os que procuraram manter-se em terra firma, cientes de que a vida é uma teia laboriosa
que se quer firmemente presa. E que a paciência e o trabalho árduo são virtudes intemporais.
Para esses, sonho, aventura e paixão são outras tantas formas de conjugar o verbo perder: não há barco mais seguro do que o que está em terra.
Mas não abdicam dos frutos do mar.
Desde que o mundo é mundo, sempre houve os que procuraram caminhos novos, cientes de que a vida oculta passagens
abertas para novos horizontes: o risco e a fortuna são incertos, mas só estão um passo mais à frente.
Para estes, do lado de lá do mar estão mundos por descobrir, amplos espaços onde cada um é mais do que sempre foi e ainda não chegou a ser.
Pequenos ou grandes, ignoti mundi de sensações, sentimentos e saberes.
O litoral é Fronteira que assusta e tenta,
antecâmara dum mysterium tremendum et fascinans,
que põe em evidência cautelas e desvarios,
limite inultrapassável que obriga ao recuo, a repisar as pedras da calçada,
ou ponto de partida, porque navegar é preciso?
post dedicado à Ana, pela sua simpatia e incentivo
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