Todo o viajante apaixonado crê existirem lugares no mundo centrados num ponto donde todas as caminhadas devem irradiar, ponto de partida que, mil vezes repetido, leva sempre a um novo percurso, a um novo olhar, a uma revelação. Só a partir do rio, a Cidade se deixa descobrir aos olhos do viajante.
Mas há quem desespere, vendo-se encurralado na estreita margem, assombrado pela encosta sobranceira onde formas bizarras se levantam, ameaçadoras.
Para esses, pontes imensas enclausuram céu e horizonte.
Na verdade, junto às pontes crescem ervas altas, mato e plantas trepadeiras, escondendo ruínas de pedra, velhos caminhos abandonados, histórias esquecidas de cercos, cantigas infantis de que só se recordam o nome.
Para o viajante mais timorato e que apressa o passo, nada disso lhe é evidente. Angustia-o o casario emoldurado a ferro e betão,
numa armação que aparenta ser prisão, esqueleto.
Para ele é difícil saber se estas são escadas para quem chega do rio, se para precipitar, quem passa, às águas. Também é verdade que sofre de tontura quase idêntica quem sobe, como quem tomba.
Ou será tudo isto ilusão claustrofóbica? Pois não surgem sempre passagens para um e outro lado?
A Cidade esconde tesouros entre o feio, banal casario, deixando a dúvida duma miragem na memória do viajante.
Por vezes, as passagens dão a ilusão de se abrirem para lado algum,
outras vezes, fazem pensar que povo escolheria viver em lugar assim.
mas se olhar atentamente, o viajante verá os sinais de vida,
de vida que se anuncia por sinais ambíguos.
Porque, lá nos altos, vive gente.
E o que, para uns, são ruínas, coito de malfeitores, para outros são palácios ou um lugar a que chamam casa.
O povo que mora aqui vive ainda do rio, mesmo que este já não lhe baste. Outrora, o rio trazia sável, enguia, lampreia.
A um deles, não foi o peixe que o tornou querido e respeitado pelo seu povo de ambas as margens: foram os homens e mulheres que salvou das fúrias do rio. E os mortos que resgatou ao lodo espesso.
Gente que passa ao lado de quem segue ligeiro ao longo do rio.
Mas quem não lhes invejará a vista que se tem lá de cima?
Esta é cidade que ainda exibe marcas de tempos de guerra
entre os que cá estavam e os que chegavam pela força,
entre os moradores, que não baixavam a cerviz, e o poder lá do alto.
Hoje, a vida junto ao rio parece ociosa,
enquadrada,
condicionada,
pelas pontes que esmagam tudo o resto.
Nada mais falso, porém: as margens apertam-se neste abraço,
Dum lado e do outro a cidade é a mesma.
Janelas para si mesmas viradas,
laços que unem num vai e vem constante,
e a cidade é casario, pontes, muralhas,
ponto de chegada e de partida,
rio abaixo, rio acima.
Onde de tudo, para todos, se encontra.
Com vagar, engenho,
arte,
alquimias antigas de mosto de uva, terra de saibro, luz do sol,
e escuridão de caves seculares.
Segredos que se desvelam a quem os procura a partir do rio.
Bem entendido, quem os procura pode descobrir o que não espera. Mas esse é o encanto de lugares assim: há sempre um barco para tentar o viajante a seguir o canto da sereia,
um horizonte novo que se abre, o apelo à migração interior para mundos esquecidos.
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